Tesouro Selic, Prefixado ou IPCA+: qual rende mais com a Selic a 14%
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Na tela de compra do Tesouro Direto, em agosto de 2026, três números aparecem quase lado a lado: Selic + 0,07% ao ano, 14,05% ao ano e IPCA + 8,11% ao ano. O reflexo é comparar os três e ficar com o maior. O problema é que eles não são comparáveis — nem estão escritos na mesma unidade.
O primeiro não é bem uma taxa: é a promessa de acompanhar outra taxa, que ninguém sabe qual será. O segundo vira um número exato em reais no vencimento, e não diz nada sobre o que esses reais vão comprar. O terceiro faz o oposto — garante o poder de compra e deixa o valor final em aberto. Colocar 14,05% e IPCA + 8,11% na mesma coluna e apontar o vencedor é como perguntar se três quilos são mais que dois metros.
Os três títulos, na verdade, não estão disputando a mesma vaga. O Tesouro Selic, o Prefixado e o IPCA+ carregam três riscos diferentes, e a taxa que aparece na tela de cada um já é o preço desse risco. Escolher pelo número maior é escolher o risco maior sem saber que escolheu.
As três famílias e as taxas de agosto de 2026
Com a Selic em 14,00% ao ano desde o corte do Copom em agosto, as taxas de referência de agosto de 2026 estão assim — e elas mudam todo dia útil, então confira no site oficial do Tesouro Direto antes de comprar:
| Família | Taxa de referência (agosto/2026) | O que você trava | O que fica em aberto |
|---|---|---|---|
| Tesouro Selic 2031 | Selic + 0,07% a.a. | Nada — acompanha a Selic | Quanto a Selic vai pagar amanhã |
| Tesouro Prefixado 2029 | 14,05% a.a. | O valor exato em reais no vencimento | Quanto esse valor vai comprar |
| Tesouro Prefixado 2032 | 14,43% a.a. | O valor exato em reais no vencimento | Quanto esse valor vai comprar |
| Tesouro IPCA+ 2032 | IPCA + 8,11% a.a. | O ganho acima da inflação | Quantos reais serão, em números |
| Tesouro IPCA+ 2040 | IPCA + 7,64% a.a. | O ganho acima da inflação | Quantos reais serão, em números |
Tesouro Selic: o título que não promete nada
O Tesouro Selic paga a Selic do dia mais um pequeno adicional — hoje, Selic + 0,07% ao ano. É pós-fixado: o rendimento é creditado conforme a taxa básica anda, sem nenhum compromisso com o futuro.
A característica que importa não é a taxa, é o comportamento do preço. O Tesouro Selic praticamente não oscila: você pode resgatar numa terça-feira qualquer, no meio de uma crise, e receber essencialmente o que investiu mais o rendimento acumulado até ali. Nos outros dois títulos isso não é verdade.
Por isso ele é o título de reserva — de emergência e de qualquer dinheiro cuja data de uso você não conhece. Some a isso um detalhe pouco aproveitado: a taxa de custódia da B3 de 0,20% ao ano é isenta nos primeiros R$ 10.000 aplicados em Tesouro Selic, por CPF. Acima disso, ela incide só sobre o que excede.
Tesouro Prefixado: o único em que você sabe o número final
No prefixado você compra uma taxa nominal fechada — 14,05% ao ano no vencimento 2029, 14,43% no 2032 — e sabe, no ato da compra, quantos reais vai receber no vencimento. Literalmente quantos reais.
Vale sublinhar: é o único dos três em que o valor final é conhecido de antemão. No Tesouro Selic, ele depende da Selic dos próximos anos; no IPCA+, depende da inflação. No prefixado, não depende de nada — desde que você leve até o vencimento.
O que fica em aberto é o que aqueles reais vão comprar. Travar 14,43% ao ano é ótimo se a inflação rodar a 4%. É bem menos interessante se ela voltar para 8%.
Tesouro IPCA+: você trava poder de compra, não reais
O IPCA+ paga a inflação medida pelo IPCA mais uma taxa fixa — IPCA + 8,11% ao ano no vencimento 2032, IPCA + 7,64% no 2040. É o inverso do prefixado: você não faz ideia de quantos reais vai receber, mas sabe exatamente quanto poder de compra vai ganhar.
Oito por cento acima da inflação, contratados por seis anos, é um prêmio raro na história do Tesouro Direto — bem acima do que esses títulos costumam pagar em condições normais. Por que o prêmio está tão gordo é tema de um artigo só sobre as taxas de IPCA+ perto de 8%, e a diferença entre comprar o 2032, o 2040 ou o 2060 é assunto de outro artigo desta série.
Eles não competem — cada um aposta numa coisa diferente
Aqui está a ideia que muda a forma de escolher.
O Tesouro Selic não aposta em nada. Ele acompanha. Se a Selic cair para 12%, ele passa a pagar 12% e pronto. Você não perde dinheiro, só ganha menos. Em troca dessa neutralidade, você abre mão de qualquer garantia sobre o rendimento futuro — o chamado risco de reinvestimento.
O Prefixado aposta que os juros vão cair mais do que o mercado já espera. Repare no advérbio: mais. A taxa de 14,43% do 2032 não é um palpite do Tesouro, é o resultado de milhares de negociações que já embutem a expectativa de queda. O mercado já sabe que o Focus projeta Selic a 12,00% no fim de 2027. Isso já está no preço. Você só sai ganhando do pós-fixado se a Selic média dos próximos anos ficar abaixo do que está embutido hoje — se o cenário for diferente do esperado, não igual.
O IPCA+ aposta que a inflação não vai corroer o seu ganho. E o mercado deixa escapar em quanto acredita nisso: comparando o Prefixado 2032 com o IPCA+ 2032, dois títulos de mesmo vencimento, o mercado embute algo perto de 5,85% de inflação ao ano até 2032 — a conta que chega a esse número, e a comparação dela com as projeções do Focus, estão no artigo sobre CDI, prefixado ou IPCA em agosto de 2026. O que interessa aqui é que esse é o divisor de águas: inflação média acima disso e o IPCA+ 2032 termina na frente do prefixado; abaixo disso, o prefixado ganha.
Repare no que essa arrumação produz. Cada um dos três só decepciona num cenário, e são cenários diferentes:
- O Tesouro Selic decepciona se os juros caírem rápido: você não perde principal, só passa a ganhar menos, sem ter travado nada.
- O Prefixado decepciona se a inflação surpreender para cima: os reais chegam exatamente como combinado, valendo menos do que você imaginava.
- O IPCA+ decepciona se a inflação vier bem abaixo dos 5,85% embutidos: você preserva poder de compra, mas teria ganhado mais em reais no prefixado.
Um cenário não desfaz o outro. Por isso ter os três na carteira não é sinal de indecisão — é o único jeito de não depender de acertar qual cenário se realiza. E é também o motivo pelo qual a pergunta "qual rende mais" não tem resposta antes do fato: ela só é respondível olhando para trás.
A pergunta que dá para responder hoje é outra, e é bem mais simples: para que serve esse dinheiro e quando você vai precisar dele?
Qual família casa com qual objetivo
Esta é a tabela que resolve a escolha na prática. A coluna que importa é a do prazo — não a da taxa:
| Objetivo | Quando você precisa | Família que casa | Por quê |
|---|---|---|---|
| Reserva de emergência | Pode ser amanhã | Tesouro Selic | Data desconhecida, preço não oscila, resgate sem susto |
| Viagem daqui a 2 anos | Data conhecida, prazo curto | Tesouro Selic | Prazo curto demais para compensar o risco de oscilação de preço |
| Entrada de imóvel em 5 anos | Data conhecida, valor conhecido | Prefixado com vencimento próximo de 2031 | Você precisa de um número em reais, e é o único que garante isso |
| Faculdade do filho em 12 anos | Data conhecida, custo sobe com a inflação | IPCA+ 2040 ou Educa+ | Mensalidade acompanha a inflação, o título também |
| Aposentadoria em 20 anos | Prazo longo, poder de compra | IPCA+ longo ou Renda+ | Em 20 anos, o que importa é o ganho real, não o nominal |
Note o padrão. Data desconhecida ou prazo curto puxam para o pós-fixado. Meta em reais puxa para o prefixado. Meta em poder de compra e prazo longo puxam para o IPCA+. Os títulos Renda+ e Educa+, que são versões do IPCA+ desenhadas para aposentadoria e educação, rodam hoje entre IPCA + 7,20% e IPCA + 8,15% ao ano.
R$ 50 mil em cada um: dois cenários ilustrativos
Números ajudam, desde que fique claro que são cenários, não previsões. Abaixo, R$ 50 mil aplicados hoje e mantidos por seis anos, até 2032, já descontados a taxa de custódia de 0,20% ao ano e o IR de 15% (alíquota de aplicações acima de 720 dias):
| Título | Cenário Focus (Selic média de 12,5%, IPCA de 4,2%) | Juros param de cair (Selic média de 14%, IPCA de 5,0%) |
|---|---|---|
| Tesouro Selic | R$ 93.000 | R$ 100.200 |
| Tesouro Prefixado 2032 (14,43%) | R$ 101.900 | R$ 101.900 |
| Tesouro IPCA+ 2032 (IPCA + 8,11%) | R$ 93.600 | R$ 97.600 |
Três leituras dessa tabela, e a terceira é a mais importante:
- O prefixado é o único cuja coluna não muda. É exatamente esse o ponto dele. Você comprou um número, e o número é aquele em qualquer cenário — desde que leve até 2032.
- O Tesouro Selic varia cerca de R$ 7,2 mil entre os dois cenários. Essa amplitude é o risco de reinvestimento na prática: o pós-fixado não perde dinheiro, mas você não sabe quanto vai ganhar.
- O prefixado aparece na frente aqui porque ambos os cenários assumem inflação abaixo dos 5,85% que o mercado embute. Mude a inflação para acima disso e a ordem se inverte. A tabela não diz qual título é melhor — diz em que aposta cada um está.
Vale notar o que essa tabela não tem: aportes. Ela é uma foto de R$ 50 mil parados, e quem está construindo patrimônio quase nunca está nessa situação. Para juntar o efeito das duas coisas — a taxa que você trava e o dinheiro que continua entrando todo mês —, a calculadora do primeiro milhão trata taxa, prazo e aporte como entradas separadas.
A regra que resolve 90% dos casos
Existe um atalho que dispensa quase toda essa análise: case o vencimento do título com a data em que você vai precisar do dinheiro.
Se você comprar um IPCA+ 2032 sabendo que só vai mexer nesse dinheiro em 2032, o preço do título no meio do caminho vira uma linha no extrato que você pode ignorar. Ele vai subir e cair — títulos longos oscilam bastante — mas você receberá exatamente a inflação mais 8,11% ao ano.
Se você não casar as datas, essa oscilação vira o seu maior risco. Vender um prefixado ou um IPCA+ antes do vencimento significa vender pelo preço do dia, que pode ser menor do que você pagou — o mecanismo se chama marcação a mercado e é tema de um artigo inteiro desta série.
Daí a razão de a árvore de decisão começar pelo prazo, e não pela taxa. A taxa maior de um título longo não é um presente: é o pagamento por um risco que só desaparece se você segurar até o fim.
Casar vencimento com objetivo tem uma virtude que passa despercebida: transforma um risco em um não-evento. O mesmo título que é arriscado para quem pode precisar sacar em 2028 é seguro para quem já sabe que só vai mexer em 2032. Nada mudou no papel — mudou o casamento. É por isso que faz mais sentido perguntar "quando?" do que "qual rende mais": a resposta à primeira pergunta muda o risco da segunda.
E quando a data não é exata? Ela raramente é. Duas saídas práticas:
- Arredonde para baixo. Entre um vencimento seis meses antes e um seis meses depois da data provável, prefira o mais curto. Sobrar dinheiro rendendo no Tesouro Selic por um semestre custa pouco; precisar vender um título longo antes da hora pode custar caro.
- Divida o objetivo. Nada obriga a comprar um vencimento só. Uma entrada de imóvel prevista para "2030 ou 2031" pode ser montada com dois títulos de vencimentos vizinhos, o que reduz a chance de a data real cair longe de qualquer um deles.
Os 10% que a regra não resolve são justamente os casos em que a data é genuinamente desconhecida — e para esses a resposta já está dada na primeira linha da tabela de objetivos: Tesouro Selic.
Os custos são os mesmos para os três
Nenhuma das três famílias tem vantagem tributária sobre as outras. Valem igualmente:
- Taxa de custódia da B3 de 0,20% ao ano, cobrada sobre o valor aplicado — com a única exceção já citada dos primeiros R$ 10 mil em Tesouro Selic.
- IR regressivo, que incide só sobre o rendimento, é retido no resgate ou no vencimento e cai conforme o dinheiro fica aplicado, até o piso de 15% acima de dois anos — a alíquota usada nos cenários acima.
A leitura prática é que passar dos dois anos vale 7,5 pontos de alíquota em relação a quem resgata nos primeiros seis meses — mais um argumento a favor de casar o vencimento com um objetivo de médio prazo em vez de girar a carteira. O Tesouro Direto também não é coberto pelo FGC, e não precisa ser: quem paga é o governo federal, o menor risco de crédito do país.
Não é "qual dos três", é "quanto em cada um"
Quem está juntando o primeiro milhão costuma ter mais de um objetivo rodando ao mesmo tempo — reserva, uma meta de médio prazo, a aposentadoria lá longe. Como cada objetivo tem uma data própria, e a data é o que decide o título, a carteira acaba com os três de qualquer forma. A pergunta deixa de ser qual escolher e passa a ser quanto vai para cada um.
Na prática, a carteira de renda fixa de quem acumula tende a ter Tesouro Selic na base, cobrindo a reserva de emergência e o dinheiro de prazo indefinido, e títulos com vencimento casado para os objetivos com data marcada. O prefixado entra quando existe um valor em reais a atingir; o IPCA+ entra quando o objetivo é longo e o custo dele sobe com a inflação.
E há um ponto que a Selic de 14% torna fácil esquecer: a taxa de hoje não vai durar 20 anos — o ciclo de cortes já está em andamento e as projeções apontam para baixo, de modo que simular a aposentadoria com 14% ao ano superestima o resultado de forma grosseira. Para prazos longos, o hábito mais útil é raciocinar em taxa real, descontando a inflação — que é, não por acaso, exatamente o que um IPCA+ entrega contratado.
Se este texto deixou uma tarefa, é esta: escreva as datas dos seus objetivos antes de olhar qualquer taxa. Depois leve cada data à calculadora do primeiro milhão e descubra de quanto precisa ser o aporte mensal para chegar lá naquele prazo. Com a data e o aporte na mão, a escolha do título vira consequência — e o único número da tela do Tesouro Direto que ainda importa é o do vencimento.
Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e não é recomendação de investimento. Taxas, tributos e condições de mercado mudam ao longo do tempo, e rentabilidade passada não garante resultado futuro.