Marcação a mercado no Tesouro Direto: como ganhar (ou perder) antes do vencimento
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Você comprou um Tesouro IPCA+ 2040, guardou, não mexeu em nada. Semanas depois abre o extrato da corretora e o investimento está no vermelho. Nenhum boleto deixou de ser pago, o Tesouro Nacional não quebrou, a taxa que você contratou continua exatamente a mesma. Ainda assim, o número na tela caiu.
Nada deu errado. O que você está vendo se chama marcação a mercado: a obrigação de mostrar todo dia por quanto o seu título seria vendido hoje, e não por quanto ele valerá no vencimento. E como o preço de um título público sai da taxa de juros do momento, ele oscila todo dia útil — inclusive para baixo.
A resposta curta, antes do detalhe: se você levar o título até o vencimento, recebe exatamente a taxa que contratou na compra, aconteça o que acontecer com o preço no meio do caminho. A oscilação só vira ganho ou prejuízo de verdade no dia em que você vende antes da hora. O resto é entender por que o preço se mexe, quanto ele se mexe e como usar isso a seu favor.
Por que o preço muda se a renda fixa era pra ser fixa
Um título público é uma promessa de pagamento. Simplifique ao osso: existe um papel que promete pagar R$ 1.000 daqui a 5 anos, e mais nada no meio do caminho.
Quanto vale essa promessa hoje? Depende de quanto de retorno o mercado exige para esperar cinco anos. Se a taxa de juros para esse prazo é de 10% ao ano, o preço justo é o valor que, rendendo 10% ao ano por cinco anos, chega a R$ 1.000:
- R$ 1.000 ÷ (1,10)⁵ = R$ 1.000 ÷ 1,61051 = R$ 620,92
Você paga R$ 620,92, espera cinco anos, recebe R$ 1.000. Isso é 10% ao ano — a sua taxa contratada. Está travada.
Agora imagine que, no mês seguinte, a taxa de mercado para esse prazo sobe para 12% ao ano. O seu título continua prometendo os mesmos R$ 1.000 na mesma data. Mas quem for comprar esse papel agora não aceita mais 10%; quer 12%. E existe uma única maneira de extrair mais retorno de um pagamento fixo: pagar menos por ele hoje.
- R$ 1.000 ÷ (1,12)⁵ = R$ 1.000 ÷ 1,76234 = R$ 567,43
O preço caiu de R$ 620,92 para R$ 567,43 — quase 9% a menos — sem que nada tenha acontecido com o seu contrato. Se a taxa tivesse caído para 8%, o efeito seria o oposto: R$ 1.000 ÷ (1,08)⁵ = R$ 680,58, quase 10% acima do que você pagou.
É essa a regra que governa tudo o que vem a seguir: taxa sobe, preço cai; taxa cai, preço sobe. Sempre, sem exceção, para qualquer título de taxa travada. Preço e taxa são dois jeitos de dizer a mesma coisa.
A gangorra em números: o prazo amplifica tudo
O tamanho do tranco depende de uma coisa acima de todas: quanto tempo falta para o vencimento. Quanto mais longe está o pagamento, mais anos a nova taxa tem para agir sobre o desconto — e maior a mexida no preço.
A tabela abaixo compara dois títulos que prometem R$ 1.000, ambos comprados a 10% ao ano: um vencendo em 5 anos, outro em 20 anos.
| Taxa de mercado | Preço do título de 5 anos | Variação | Preço do título de 20 anos | Variação |
|---|---|---|---|---|
| 11% (subiu 1 ponto) | R$ 593,45 | −4,4% | R$ 124,03 | −16,6% |
| 10% (taxa da compra) | R$ 620,92 | — | R$ 148,64 | — |
| 9% (caiu 1 ponto) | R$ 649,93 | +4,7% | R$ 178,43 | +20,0% |
| 8% (caiu 2 pontos) | R$ 680,58 | +9,6% | R$ 214,55 | +44,3% |
Um único ponto percentual de taxa mexe 4,4% no preço do título curto e 16,6% no longo — quase quatro vezes mais. É por isso que quem tem Tesouro IPCA+ 2060 na carteira vê o extrato balançar de um jeito que quem tem o IPCA+ 2032 nunca vê. Não é um título "mais arriscado" no sentido de calote: o emissor é o mesmo. É um título mais sensível.
O preço volta ao par sozinho
Volte ao exemplo. Você pagou R$ 620,92 por um papel que paga R$ 1.000 em cinco anos, e a taxa de mercado subiu para 12% e ficou lá até o fim. O que acontece com o preço ao longo do tempo?
| Anos até o vencimento | Preço de mercado (taxa em 12%) |
|---|---|
| 5 anos | R$ 567,43 |
| 4 anos | R$ 635,52 |
| 3 anos | R$ 711,78 |
| 2 anos | R$ 797,19 |
| 1 ano | R$ 892,86 |
| Vencimento | R$ 1.000,00 |
O preço cai no susto inicial e depois sobe sozinho, todo ano, até encostar em R$ 1.000 na data combinada. Ele não tem escolha: no vencimento, o título vale o que promete pagar. A perda do extrato se desfaz com a passagem do tempo.
E o seu retorno? Você pagou R$ 620,92 e recebeu R$ 1.000 em cinco anos — 10% ao ano, exatamente a taxa que estava na tela no dia da compra. Nem um centavo a menos por causa da oscilação. Quem comprou depois, a R$ 567,43, levou 12% ao ano; ótimo para ele, irrelevante para você.
Repare no que essa convergência implica sozinha, sem precisar de nenhuma regra externa: o preço só machuca quem sai antes da data final, e a data final é conhecida desde o dia da compra. Se o dinheiro tiver de ser usado justamente quando o título vence, a marcação a mercado nunca chega a alcançar você — ela vive inteira no intervalo entre hoje e o vencimento, e esse intervalo se fecha. Casar o vencimento com o uso do dinheiro não é uma regra de ouro anunciada de fora; é o que sobra depois de entender o mecanismo. Se o objetivo é a entrada do apartamento em 2032, um título que vence em 2032 transforma a oscilação em ruído de tela. Qual família de título serve a cada horizonte é o tema do artigo que compara Selic, prefixado e IPCA+, e qual vencimento escolher dentro do IPCA+ é assunto do que compara os prazos 2032, 2040 e 2060.
Quando a marcação a mercado vira oportunidade
A gangorra também funciona para cima, e aí deixa de ser susto e vira estratégia — a chamada venda antecipada com ganho de marcação.
O raciocínio é direto: você compra um Tesouro IPCA+ longo travando uma taxa alta — digamos 8% ao ano acima da inflação — e, algum tempo depois, as taxas longas caem para 6%. Como o mercado agora aceita ganhar menos pelo mesmo pagamento, o preço dispara. Num papel com 14 anos pela frente, essa queda de 2 pontos coloca o preço cerca de 30% acima do que estaria se a taxa tivesse ficado em 8%. Você pode vender e embolsar de uma vez um ganho que levaria anos para acumular.
É uma estratégia legítima e conhecida. Mas ela tem três contrapartidas que raramente aparecem no anúncio:
- Depende de um movimento que ninguém controla. Não há garantia de que as taxas longas vão cair, nem prazo para isso — elas podem subir, e a espera vira anos. As taxas de IPCA+ estarem hoje na casa de 7,5% a 8% reais tem razões próprias que não somem por decreto.
- O imposto entra na conta. No resgate antecipado, o Imposto de Renda incide sobre todo o rendimento apurado, na tabela regressiva:
| Prazo da aplicação | Alíquota de IR |
|---|---|
| Até 180 dias | 22,5% |
| De 181 a 360 dias | 20,0% |
| De 361 a 720 dias | 17,5% |
| Acima de 720 dias | 15,0% |
Vender no primeiro ano entrega 20% a 22,5% do ganho ao Leão. Esperar passar de dois anos derruba a mordida para 15%. A pressa custa dinheiro.
- Você abre mão da taxa. Ao vender, deixa de receber IPCA + 8% pelos anos restantes e reinveste a preços novos — piores por definição, já que foi a queda de taxa que gerou o lucro.
Quando ela vira armadilha
O outro lado é menos glamouroso: precisar do dinheiro num momento ruim. Aí a perda de tela vira perda de verdade, porque a venda antecipada sai pelo preço do dia.
O erro clássico é usar título longo como reserva de emergência. A lógica parece boa — "a taxa é maior, e o Tesouro Direto tem liquidez diária" — mas ignora que liquidez diária significa vender pelo preço de hoje. Quem precisa de R$ 20 mil às pressas justamente no mês em que a taxa longa abriu 1,5 ponto descobre isso da pior maneira.
Existe um título desenhado para não ter esse problema: o Tesouro Selic. A diferença é estrutural — nele o rendimento não fica travado numa taxa contratada, e sim acompanha a Selic dia após dia. Como a remuneração se ajusta continuamente ao juro corrente, não há descompasso entre o que o papel paga e o que o mercado exige, e o preço praticamente não oscila. É por isso que ele é o título de reserva e de dinheiro com data incerta — não porque rende mais. Rende menos que um IPCA+ longo, e essa diferença é o preço da tranquilidade: você paga em rentabilidade para não depender do preço de um dia específico.
Quatro mal-entendidos que custam caro
- "Estou perdendo dinheiro." Não enquanto não vender. O vermelho no extrato é o preço de uma venda que você não fez; levando até o vencimento, a taxa combinada vale integralmente e o preço volta ao par sozinho.
- "Vou esperar o preço voltar para comprar mais." É o raciocínio da bolsa aplicado onde ele não cabe. Preço baixo em título público significa taxa alta — o momento em que a compra fica melhor, não pior. Esperar o preço subir é esperar a taxa cair para ganhar menos.
- "Renda fixa não pode cair." Fixa é a regra de rendimento, não o preço no meio do caminho. O contrato é sobre quanto você recebe na data final; entre hoje e lá, o valor de revenda varia todo dia útil.
- "Vendi no lucro, então acertei." Talvez. A comparação certa não é "vendi por mais do que paguei", e sim "o que ganhei vendendo, já descontado o IR, contra o que teria ganhado ficando até o fim com a taxa antiga". Muitas vezes a venda só antecipa um ganho que já era seu — cobrando imposto mais cedo pelo privilégio.
E agora, com a Selic em queda?
O pano de fundo ajuda, mas menos do que muita gente supõe. A Selic vem caindo desde março e chegou a 14% ao ano na reunião de agosto, com o boletim Focus projetando 12,00% no fim de 2027. Num ciclo de queda, quem comprou prefixado e IPCA+ com taxas altas tende, sim, a ver o preço se valorizar.
Só que a taxa longa não obedece ao Copom. O juro de curto prazo é definido pelo Banco Central; o juro de 15 ou 20 anos é o que o mercado cobra para emprestar por tanto tempo, e isso responde muito mais a percepção de risco fiscal do que a decisões de reunião. Dá para ter Selic caindo e taxa de 2050 subindo ao mesmo tempo. Já aconteceu, e vai acontecer de novo. Contar com a valorização é uma aposta; o plano é a taxa contratada.
Como montar a carteira para nunca vender no pior dia
Para quem acumula com aportes mensais, a marcação a mercado é bem mais inofensiva do que parece — desde que o dinheiro esteja no lugar certo.
Separe por prazo, não por rendimento. Dinheiro que pode ser chamado a qualquer momento fica onde o preço não oscila. Dinheiro com data marcada vai para um título que vence perto dessa data. Dinheiro sem data nenhuma, de aposentadoria, aguenta prazo longo — é ele que tem estômago para atravessar as gangorras do meio do caminho.
Aporte constante neutraliza boa parte do problema. Quem compra todo mês compra caro em alguns e barato em outros, e no fim carrega uma taxa média. A oscilação vira apenas a variação do preço de entrada, enquanto o efeito dos juros compostos segue trabalhando indiferente ao que o extrato mostra num mês qualquer.
E não projete a taxa de hoje para sempre. Juros reais de 7% a 8% são historicamente generosos e não são a média de longo prazo do Brasil.
Há um teste que só faz sentido depois de entender a gangorra, e vale mais do que qualquer palpite sobre para onde vão as taxas. Abra a calculadora do primeiro milhão e simule o seu plano duas vezes com o mesmo aporte, mudando só o prazo: primeiro até o horizonte que você imagina de verdade, depois até a data mais próxima em que a vida poderia exigir esse dinheiro de volta — um imprevisto grande, uma troca de emprego, uma mudança de cidade. O patrimônio que aparece nessa segunda simulação é o que estaria sujeito ao preço do dia numa venda antecipada, e o quanto ele fica abaixo do primeiro mostra o tamanho do pedaço do plano que depende de você não precisar sacar antes da hora. Se o número assustar, a correção não é escolher outro título: é engordar a parte que fica em Tesouro Selic até que a venda no pior dia deixe de ser um cenário possível.
Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e não é recomendação de investimento. Taxas, tributos e condições de mercado mudam ao longo do tempo, e rentabilidade passada não garante resultado futuro.