Primeiro Milhão

100% do CDI com a Selic a 14%: quanto rende por mês e por ano

Publicado em

Um investimento que paga 100% do CDI rende hoje 13,90% ao ano. Isso equivale a 1,09% ao mês e a cerca de 0,05166% por dia útil — cinco centésimos de por cento por dia, que parecem nada e viram muito.

Em dinheiro: R$ 100 mil aplicados a 100% do CDI rendem R$ 51,66 por dia útil, R$ 1.090 num mês típico e R$ 13.900 em doze meses, tudo antes do Imposto de Renda.

Esse é o número que você procurava. O resto deste texto explica de onde ele vem, quanto sobra depois do imposto, e por que — quase garantido — o saldo que aparece no seu aplicativo no fim do mês vai ser diferente de R$ 1.090.

O CDI não é a Selic (e a diferença tem uma razão)

O CDI é a taxa dos Certificados de Depósito Interbancário. Bancos fecham o dia com sobra ou falta de caixa e emprestam dinheiro uns aos outros por um dia só para equilibrar as contas. A B3 apura a taxa média dessas operações e publica todo dia útil: isso é o CDI.

Como esses empréstimos entre bancos são a alternativa direta às operações com títulos públicos, a taxa média acaba andando colada na Selic — mas tipicamente um pouquinho abaixo, uns 0,10 ponto percentual. Com a Selic em 14,00% ao ano depois do corte do Copom de agosto, o CDI roda em 13,90%.

Taxa Ao ano Ao mês
Selic 14,00% 1,10%
CDI 13,90% 1,09%

Aquele 0,10 ponto de diferença é pequeno no papel e continua pequeno na prática: em R$ 100 mil ao longo de um ano, separa R$ 14.000 de R$ 13.900. Cem reais. Vale conhecer a diferença para não se assustar quando o rendimento de um CDB "de 100% do CDI" não bater exatamente com a Selic anunciada no jornal — mas não vale perder tempo escolhendo produto por causa dela.

Quanto rende, em três escalas de tempo

O CDI é divulgado como taxa anual, mas capitalizado diariamente. A conversão entre as escalas é sempre por juros compostos, nunca por divisão simples — 13,90% dividido por 12 daria 1,16% ao mês, e isso está errado. O caminho certo é a raiz: 1,1390 elevado a 1/12 dá 1,09% ao mês.

Escala Taxa a 100% do CDI Em R$ 100 mil
Um dia útil 0,05166% R$ 51,66
Um mês 1,09% R$ 1.090
Um ano 13,90% R$ 13.900

A taxa diária sai da mesma lógica, só que com expoente 1/252: 1,1390 elevado a 1/252 dá 0,05166%. Parece um arredondamento sem importância, mas é essa taxa minúscula que incide sobre o saldo a cada pregão e depois é capitalizada sobre si mesma. É também por isso que doze meses de 1,09% fecham em 13,90%, e não nos 13,08% que a soma simples daria: essa diferença de 0,82 ponto percentual — R$ 820 ao ano em R$ 100 mil — é o juro rendendo em cima do juro.

Quanto isso dá em reais, por capital

A tabela abaixo é o rendimento bruto mensal a 100% do CDI, e ao lado o que sobra depois do Imposto de Renda de 15% — a alíquota de quem deixa o dinheiro aplicado por mais de dois anos, a menor de todas.

Capital Rendimento bruto por mês Líquido por mês com IR de 15%
R$ 10.000 R$ 109 R$ 93
R$ 50.000 R$ 545 R$ 463
R$ 100.000 R$ 1.090 R$ 927
R$ 500.000 R$ 5.450 R$ 4.633
R$ 1.000.000 R$ 10.900 R$ 9.265

Repare que o CDI não faz milagre: R$ 1 milhão a 100% do CDI paga cerca de R$ 9.265 líquidos por mês — e isso sem descontar a inflação, que come parte desse valor todo mês. É um bom rendimento, mas quem imagina viver de renda com muito menos que isso costuma estar contando com uma taxa que não existe.

Por que a conta do seu extrato nunca bate

Aqui está a parte que ninguém explica direito. Você calculou R$ 1.090 no mês para os seus R$ 100 mil, abre o aplicativo no dia 30 e encontra R$ 1.038. Ou R$ 1.195. Quase nunca R$ 1.090. Três motivos, e todos são normais.

1. O CDI conta dias úteis, não dias de calendário

A renda fixa brasileira trabalha com uma base de 252 dias úteis por ano. O rendimento só acontece em dia de pregão: fim de semana não rende, feriado não rende. Um mês com 20 dias úteis rende menos que um mês com 23 dias úteis, mesmo os dois tendo 30 e poucos dias no calendário.

Dias úteis no mês Rendimento do mês Em R$ 100 mil
19 0,99% R$ 986
20 1,04% R$ 1.038
21 1,09% R$ 1.090
22 1,14% R$ 1.143
23 1,20% R$ 1.195

Entre o mês mais curto e o mais longo do ano há R$ 209 de diferença em R$ 100 mil — mais de 20% de variação no rendimento mensal, sem que nada tenha mudado no seu investimento nem na taxa. É por isso que comparar "quanto rendeu em janeiro" com "quanto rendeu em fevereiro" não diz nada sobre a qualidade da aplicação. No fim do ano, os 252 dias se completam e o total fecha nos 13,90%.

2. O saldo na tela está bruto

O Imposto de Renda da renda fixa é retido na fonte, no resgate ou no vencimento — não mês a mês. Até lá, o número que você vê na tela é o rendimento cheio, antes do imposto. Ele está tecnicamente correto e economicamente inflado.

Aquele R$ 1.090 do mês vira R$ 927 na sua conta se você resgatar depois de dois anos, e menos ainda se resgatar antes. Vale a pena olhar o saldo do aplicativo já aplicando o desconto mentalmente, para não fazer planos com dinheiro que é do Leão. O imposto incide só sobre o rendimento, nunca sobre o valor que você aplicou.

3. Nos primeiros 30 dias ainda tem IOF

Se você aplicou e resgatou dentro de um mês, entra também o IOF regressivo. Ele começa mordendo quase todo o rendimento no primeiro dia e vai caindo a cada dia que passa, até zerar no 30º dia. Resgates muito rápidos rendem quase nada não por culpa do CDI, mas do IOF.

Na prática: aplicação pós-fixada com liquidez diária é ótima para reserva de emergência, mas o dinheiro precisa completar 30 dias para o rendimento aparecer inteiro.

O que sobra de 13,90% depois do imposto

O IR da renda fixa é regressivo: quanto mais tempo o dinheiro fica aplicado, menor a alíquota. Ela parte de 22,5% para quem resgata nos primeiros seis meses e desce em degraus até 15% depois de dois anos. A conta do que sobra é direta — a taxa líquida é a taxa bruta multiplicada por (1 menos a alíquota) —, e o resultado por faixa de prazo é este:

Prazo da aplicação CDI líquido equivalente De cada R$ 1.000 de rendimento, sobram
Até 180 dias 10,77% a.a. R$ 775
De 181 a 360 dias 11,12% a.a. R$ 800
De 361 a 720 dias 11,47% a.a. R$ 825
Acima de 720 dias 11,82% a.a. R$ 850

Entre a pior e a melhor faixa há 1,04 ponto percentual de diferença — uma vantagem que você conquista sem escolher produto melhor, sem correr mais risco e sem negociar taxa nenhuma. Só deixando o dinheiro quieto até passar de dois anos. Para dinheiro que já é de longo prazo, essa é a otimização mais barata que existe.

Duas ressalvas rápidas, porque cada uma é assunto de um artigo inteiro. A primeira: nem todo produto paga exatamente 100% do CDI — bancos menores oferecem 110% ou 120%, e a diferença muda bastante o resultado final. A segunda: LCI e LCA são isentas de IR para pessoa física, o que faz um percentual menor de CDI valer mais que um maior tributado — a comparação depois do imposto inverte várias intuições. E há ainda os títulos públicos, que seguem outra lógica de indexação.

O CDI de hoje não é o CDI de amanhã

Este é o erro mais caro de todos, e ele não aparece no extrato: aparece no seu plano de dez anos.

O CDI acompanha a Selic, e a Selic está caindo. Foram quatro cortes seguidos desde março, de 15,00% para 14,00%, e o boletim Focus projeta a taxa em 12,00% no fim de 2027 — dois pontos abaixo da de agora. Aplicando a mesma diferença de 0,10 ponto, isso seria um CDI perto de 11,90% ao ano, ou 10,12% líquidos para quem já passou dos dois anos de aplicação: 1,70 ponto percentual a menos que os 11,82% de agora. Em R$ 100 mil parados, é a diferença entre render R$ 11.820 e render R$ 10.120 no ano, sem que você tenha mudado absolutamente nada na carteira.

E 2027 não é o fim da história — projeções param onde param, mas ciclos de juros continuam. Um plano de vinte anos montado com 13,90% ao ano está errado por construção. Não porque a taxa de hoje seja falsa, mas porque ela é uma fotografia de um momento excepcional dos juros brasileiros, e nenhum momento excepcional dura vinte anos.

Três jeitos de usar um CDI de 13,90% sem se enganar

O número é bom, e é justamente por isso que ele engana. Três consequências práticas.

Para a reserva de emergência, o CDI de hoje é uma dádiva. Dinheiro que precisa ficar líquido e seguro rendendo quase 14% ao ano é uma anomalia histórica. Aproveite enquanto dura, e lembre dos 30 dias do IOF.

Para simular o longo prazo, use uma taxa menor. Com o CDI líquido atual de 11,815% ao ano — a alíquota de 15%, que é a que vale em qualquer horizonte longo —, um capital leva pouco mais de 20 anos para se multiplicar por dez sem aportes novos — e esse já é o cenário otimista, porque supõe a taxa de agosto de 2026 congelada por duas décadas. Taxas mais modestas, que é o que a média de vinte anos costuma entregar, empurram esse prazo para bem mais longe — o tempo para cada taxa está calculado linha a linha, e a diferença entre elas é grande o bastante para mudar o ano em que você para de trabalhar.

Pense em poder de compra, não em número nominal. Com a inflação em 4,64% nos últimos doze meses, os 11,82% líquidos do CDI viram algo perto de 6,9% de ganho real. Continua excelente, mas é metade do número que aparece na propaganda. O guia sobre o efeito da inflação no primeiro milhão mostra como esse desconto se acumula ao longo dos anos.

Se ficou uma pergunta deste texto, provavelmente é esta: 1,09% ao mês leva o seu dinheiro até onde, e em quanto tempo? Vale abrir a calculadora do primeiro milhão com os 11,82% líquidos do CDI e o aporte que você realmente consegue fazer. O resultado é o teto do que o pós-fixado entrega no melhor momento de juros em muitos anos — e, se mesmo esse teto não chegar onde você quer chegar, o problema não está na taxa, está no tamanho do aporte ou no prazo.

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e não é recomendação de investimento. Taxas, tributos e condições de mercado mudam ao longo do tempo, e rentabilidade passada não garante resultado futuro.

← Voltar pro blog

Ir para a calculadora