CDB de 100%, 110% ou 120% do CDI: quanto rende cada um com a Selic a 14%
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São três telas com a mesma pergunta. No aplicativo do banco onde cai o salário, um CDB de liquidez diária pagando 100% do CDI. No WhatsApp, o gerente mandou uma oferta de 110% com resgate só no vencimento, daqui a dois anos. Na corretora, uma financeira de nome desconhecido anuncia 120% por cinco anos, com aporte mínimo de R$ 50 mil. As três telas mostram o percentual em fonte grande, e o resto em cinza.
Antes de comparar qualquer coisa, vale traduzir os percentuais em dinheiro — é aí que a conversa muda de tamanho. Com a Selic a 14,00% ao ano e o CDI a 13,90%, dez pontos percentuais de CDI a mais valem cerca de R$ 573 líquidos por ano em uma aplicação de R$ 50 mil. Menos de R$ 50 por mês.
Parece pouco, e em um ano é pouco mesmo. O problema é que a vitrine vende esses pontos como a decisão mais importante da sua vida financeira, enquanto as condições grudadas neles — carência até o vencimento, prazo de cinco anos, aporte mínimo, emissor desconhecido — mal aparecem na tela. O roteiro abaixo tem cinco perguntas, na ordem em que vale a pena fazê-las diante de uma oferta real. A primeira é a mais fácil, e já elimina boa parte das propostas.
Pergunta 1: quanto essa diferença vale, em reais, para o seu capital
Percentual do CDI é uma informação incompleta até você multiplicá-lo pelo dinheiro que tem. As taxas brutas anuais saem direto do CDI de 13,90%: 100% dele é 13,90%, 110% é 15,29% e 120% é 16,68%. Sobre o rendimento incide o Imposto de Renda regressivo — em uma aplicação de 12 meses, a alíquota é de 17,5%, cobrada só sobre o ganho, nunca sobre o principal, e retida no resgate.
| Capital | Percentual do CDI | Rendimento bruto | IR (17,5%) | Rendimento líquido | Diferença vs. 100% |
|---|---|---|---|---|---|
| R$ 10.000 | 100% | R$ 1.390 | R$ 243 | R$ 1.147 | — |
| R$ 10.000 | 110% | R$ 1.529 | R$ 268 | R$ 1.261 | +R$ 115 |
| R$ 10.000 | 120% | R$ 1.668 | R$ 292 | R$ 1.376 | +R$ 229 |
| R$ 50.000 | 100% | R$ 6.950 | R$ 1.216 | R$ 5.734 | — |
| R$ 50.000 | 110% | R$ 7.645 | R$ 1.338 | R$ 6.307 | +R$ 573 |
| R$ 50.000 | 120% | R$ 8.340 | R$ 1.460 | R$ 6.881 | +R$ 1.147 |
| R$ 100.000 | 100% | R$ 13.900 | R$ 2.433 | R$ 11.468 | — |
| R$ 100.000 | 110% | R$ 15.290 | R$ 2.676 | R$ 12.614 | +R$ 1.146 |
| R$ 100.000 | 120% | R$ 16.680 | R$ 2.919 | R$ 13.761 | +R$ 2.293 |
Ache a sua linha e olhe só a última coluna: é o valor real que está em disputa. Três coisas ficam evidentes quando a diferença vira dinheiro.
A primeira: o Imposto de Renda também sobe junto. Em R$ 100 mil, o salto de 100% para 120% do CDI aumenta o rendimento bruto em R$ 2.780, mas R$ 486 disso vão para o Leão. A diferença que chega na sua conta é de R$ 2.293, ou 82,5% do que a propaganda sugere.
A segunda: a diferença é proporcional ao capital. Em R$ 10 mil, 20 pontos percentuais a mais rendem R$ 229 por ano — dois jantares. Em R$ 100 mil, os mesmos 20 pontos rendem R$ 2.293. Travar o dinheiro por três anos para ganhar R$ 229 costuma ser mau negócio; em valores altos, a conversa muda de patamar. Ou seja: a mesma oferta pode ser péssima para o seu vizinho e razoável para você, e o que decide isso é o saldo, não o número no banner.
A terceira: percentual não é rentabilidade. 110% do CDI não rende 10% a mais que a poupança — rende 10% a mais que o próprio CDI. Se a mecânica da taxa ainda não estiver clara, ela é o tema do artigo sobre quanto rende 100% do CDI com a Selic a 14%.
Pergunta 2: por quanto tempo esse dinheiro vai ficar parado ali
A tabela acima é o retrato de um ano. Mas percentual do CDI é uma vantagem que se multiplica sobre si mesma: o rendimento a mais de um ano vira base do rendimento do ano seguinte. Como as ofertas de percentual alto quase sempre vêm com prazo longo, o horizonte precisa entrar na conta antes de você julgar se o prêmio é grande ou pequeno. Veja o mesmo R$ 50 mil deixado parado por prazos diferentes.
| Prazo | 100% do CDI | 110% do CDI | 120% do CDI | Ganho do 120% sobre o 100% |
|---|---|---|---|---|
| 1 ano (IR de 17,5%) | R$ 5.734 | R$ 6.307 | R$ 6.881 | +R$ 1.147 |
| 2 anos (IR de 15%) | R$ 12.636 | R$ 13.990 | R$ 15.360 | +R$ 2.724 |
| 5 anos (IR de 15%) | R$ 38.972 | R$ 44.066 | R$ 49.412 | +R$ 10.440 |
Valores de rendimento líquido acumulado, já descontado o IR, supondo o CDI parado em 13,90% ao ano — hipótese irreal para cinco anos, mas útil para isolar o efeito do percentual. Note que a alíquota cai de 17,5% para 15% depois de 720 dias, o que ajuda os prazos mais longos.
O número que interessa continua sendo o da última coluna. Em um ano, escolher 120% em vez de 100% do CDI rende R$ 1.147 a mais. Em cinco anos, rende R$ 10.440 a mais — mais de nove vezes a diferença de um único ano, e não cinco vezes. É a mesma matemática dos juros compostos atuando sobre uma vantagem pequena e persistente: o tempo transforma 10 pontos de CDI em algo que muda o resultado final.
Repare no que isso faz com as três telas do começo. O prêmio do percentual alto só aparece inteiro se o dinheiro ficar lá até o fim — e é justamente o prazo longo que a oferta exige. Vantagem e exigência são a mesma coisa vista de dois lados. Se a sua dúvida ainda não é entre percentuais, e sim entre produtos, vale ver antes o que R$ 100 mil rendem hoje, que compara as opções da renda fixa em três horizontes — um mês, um ano e dois anos — com o capital fixo. É a mesma pergunta feita pelo outro eixo: lá o que muda é o produto, aqui o que muda é o percentual.
Pergunta 3: o que você está entregando em troca
Nenhum banco paga 120% do CDI por bondade. Ele paga porque precisa daquele dinheiro e porque, do jeito dele, sai mais barato do que as alternativas. Percentuais de 115% a 120% costumam vir com pelo menos uma destas quatro condições — e em geral com duas. Antes de aceitar, aponte qual delas está na sua oferta.
1. Liquidez só no vencimento. É a mais comum e a mais cara. O CDB de resgate diário é o que paga menos — tipicamente na faixa de 100% do CDI. Para pagar mais, o banco exige que você abra mão desse resgate. Se surgir uma emergência no mês 14 de um papel de 36 meses, as opções são ruins: pedir crédito a juros de banco, que são múltiplos do que o CDB paga, ou vender o título no mercado secundário, onde o comprador cobra deságio porque sabe que você tem pressa. O custo dessa condição não aparece enquanto nada dá errado — e aparece inteiro quando algo dá.
2. Prazo longo. Muitas ofertas de percentual alto são de 3 a 5 anos. Isso não é só liquidez travada: é uma aposta implícita. Você fixa um multiplicador sobre uma taxa que vai encolher (a quinta pergunta é exatamente essa) e compromete capital que talvez tivesse uso melhor daqui a dois anos.
3. Aporte mínimo alto. Percentuais de vitrine costumam exigir R$ 20 mil, R$ 50 mil ou R$ 100 mil de entrada. Isso concentra em um único emissor um pedaço grande do seu patrimônio — e concentração é exatamente o que você não quer quando o assunto é risco de crédito.
4. Emissor menor. Bancos médios, digitais e financeiras pagam mais porque captam pior. Não é armadilha nem sinal de fraude: é o preço de mercado de quem tem menos reputação e menos funding barato. Só que esse preço é o risco, e ele é seu.
Vale checar também se o percentual anunciado vale para todo o prazo ou só para uma janela inicial: em ofertas escalonadas, a taxa média do papel inteiro fica bem abaixo do número do banner. E, se o dinheiro tem data marcada — entrada de imóvel, faculdade do filho —, procurar um vencimento próximo dessa data costuma render mais tranquilidade do que caçar 5 pontos de CDI a mais; o encaixe entre prazo e objetivo é discutido em detalhe na comparação entre Tesouro Selic, prefixado e IPCA+. Dentro de uma mesma faixa de prazo, aí sim compare percentuais à vontade.
Pergunta 4: isso cabe dentro do seu limite de garantia?
Quando você compra um CDB, está emprestando dinheiro ao banco, e não ao Tesouro Nacional. Se o banco quebrar, quem paga é o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mantido pelas próprias instituições financeiras. As regras são específicas e valem a pena decorar:
- cobre até R$ 250 mil por CPF por instituição, considerando principal mais os juros já acumulados;
- há um teto global de R$ 1 milhão a cada 4 anos por CPF, somando todas as instituições;
- cobre CDB, LCI, LCA e poupança. Não cobre Tesouro Direto (que tem risco soberano, ainda menor) nem fundos imobiliários.
O detalhe do "principal mais juros" tem consequência prática na hora de dimensionar o aporte. Quem aplica exatamente R$ 250 mil em um CDB de 120% do CDI por um ano chega ao vencimento com cerca de R$ 291.700 brutos — uns R$ 41.700 acima da cobertura. Para ficar dentro do limite com um ano de juros embutido, o aporte teria de ficar perto de R$ 214 mil por instituição.
O outro detalhe importante é o tempo. O FGC costuma pagar, mas não paga no dia seguinte: entre a liquidação do banco e o crédito na sua conta passam semanas ou meses, e nesse intervalo o dinheiro fica parado, sem render nada. A garantia protege o valor, não a disponibilidade.
A leitura honesta, então, é esta: o percentual alto de um banco pequeno é o preço do risco de crédito, não um erro de precificação. Ficar dentro do limite do FGC, pulverizado entre instituições, é o que transforma esse risco em algo administrável. Ultrapassar o limite atrás de 5 pontos de CDI a mais é trocar um ganho conhecido e pequeno por uma perda improvável e enorme. Se a oferta de 120% só faz sentido com um aporte que estoure a cobertura, ela já respondeu à pergunta.
Pergunta 5: o prêmio compensa a base que vai encolher?
Este é o ponto mais subestimado da decisão. O percentual do CDI é fixo no contrato; o CDI, não. Ele acompanha a Selic — que está em queda desde março, já caiu um ponto inteiro em 2026 e, pela mediana do boletim Focus, deve terminar 2027 em 12,00% ao ano.
Com a Selic em 12%, o CDI ficaria perto de 11,90%. Aplicando os mesmos multiplicadores sobre essa base: 100% do CDI daria 11,90% brutos ao ano, 110% daria 13,09% e 120% daria 14,28%.
Compare com hoje: 120% do CDI de 2027 renderia menos que 110% do CDI de agora (15,29%), e pouco mais que 100% do CDI de hoje. O CDB de 120% contratado por cinco anos vai continuar entregando 120% — de uma taxa progressivamente menor. Isso não é defeito do produto, é a natureza do pós-fixado, e é a razão pela qual travar liquidez tão longe merece mais cuidado do que a decisão costuma receber. O corte da Selic para 14% em agosto é só mais um passo de um caminho que o Banco Central sinaliza que vai continuar.
Se a sua conclusão for que nenhum multiplicador resolve isso e que o problema é a própria escolha entre pós-fixado e taxa travada, o tema tem artigo próprio sobre CDI, prefixado ou IPCA+ em agosto de 2026. E se a oferta na sua tela não for um CDB, e sim uma LCI ou LCA, refaça a pergunta 1 antes de tudo: a isenção de IR muda completamente a conta, e uma LCI de 90% do CDI supera um CDB de 100% depois do imposto, como mostra a comparação líquida entre LCI, LCA e CDB.
Voltando às três telas
Com as cinco respostas na mão, as três ofertas do começo se ordenam sozinhas — e a ordem depende de uma coisa que nenhuma delas sabe: para que serve esse dinheiro.
Se ele pode ser chamado a qualquer momento — reserva de emergência, colchão de imprevistos —, liquidez vence percentual, sem discussão. O CDB de resgate diário a 100% do CDI rende R$ 5.734 líquidos por ano em R$ 50 mil. O de 120% travado renderia R$ 1.147 a mais e cobraria por isso a impossibilidade de usar o dinheiro justamente quando ele for necessário. Nenhuma reserva de emergência deveria morar dentro de um papel com carência.
Se ele é dinheiro de acumulação, sem data marcada, vale medir o prêmio contra a alternativa mais óbvia. Em R$ 50 mil, subir de 100% para 120% do CDI adiciona R$ 1.147 líquidos em um ano. Aportar R$ 100 a mais por mês adiciona R$ 1.262 no mesmo período, já contando o rendimento das parcelas que entraram antes — e não exige travar nada, não depende de oferta de banco nenhum e continua funcionando quando a Selic cair. Percentual é otimização; aporte é motor. Isso não torna o percentual irrelevante: aqueles R$ 10.440 de diferença em cinco anos mostram que uma vantagem pequena e constante é o tipo de coisa que os juros compostos amplificam. Ela é ajuste fino sobre um plano que já funciona — nunca substituta de um plano.
E é exatamente essa a comparação que vale fazer antes de assinar cinco anos de carência. Coloque o seu capital atual e o seu objetivo na calculadora do primeiro milhão e descubra qual aumento de aporte mensal chega na mesma data que o percentual maior prometeria. Depois responda a uma pergunta só: é mais fácil sustentar esse aporte a mais todo mês ou ficar cinco anos sem tocar no dinheiro? Quem tem essa resposta não precisa mais decidir olhando o número em fonte grande.
Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e não é recomendação de investimento. Taxas, tributos e condições de mercado mudam ao longo do tempo, e rentabilidade passada não garante resultado futuro.